Equipamento feito em plástico imita a estrutura do crânio e protege mais, absorvendo os impactos
Raquel Lima
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA
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Os plantões que o neurocirurgião Maurício Paranhos Torres fez no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostraram a ele que a complexa estrutura do corpo humano poderia ser reproduzida e empregada para proteger, veja só, o próprio corpo humano. Durante a residência médica, Torres presenciou vários casos de traumatismos graves da cabeça, com fraturas extensas e até mesmo perda de massa óssea, mas com o cérebro íntegro e em perfeitas condições. Foi então que percebeu que o crânio é um excelente capacete.
Os atuais modelos do equipamento de segurança passaram a ser estudados pelo médico. A conclusão do trabalho, que teve início na década de 90, foi que os capacetes vendidos no mercado possuem “deficiências conceituais e deixam a desejar”. “As indústrias fazem o produto simplesmente para atender normas”, afirmou Torres.
Segundo recente relatório da Empresa de Desenvolvimento de Campinas (Emdec), 69% dos ocupantes das motos sofrem algum tipo de lesão, contra 15% dos demais veículos. Além disso, as mortes entre os motociclistas de Campinas subiram 47,6% em 2005 se comparado a 2004, passando de 21 para 31 casos.
A principal deficiência dos capacetes que hoje estão disponíveis no mercado, segundo o neurocirurgião, é que eles são resistentes, mas não tão capazes de absorver impactos. Ou seja, os capacetes atuais são considerados duros demais. “O que não significa que devem deixar de ser usados”, enfatizou Torres.
Numa parceria com o químico
José Roberto de Oliveira, estudioso de materiais para absorção de impactos, Torres projetou um capacete que promete ser capaz de absorver melhor os choques na cabeça, pois sua tecnologia evita que o cérebro receba a energia aplicada na colisão. Invenção totalmente inspirada no crânio humano, a célula de proteção craniana” é chamada de Scage (Super Cage).
O primeiro diferencial do novo capacete é o seu material de fabricação. Apesar de ainda não ser divulgado com detalhes por Torres, por uma questão de sigilo industrial, trata-se de um polímero (plástico), isopor e um material borrachudo. É bem mais leve que os materiais atualmente utilizados (como fibra de vidro e carbono), reduzindo a massa e, consequentemente, a força rápida da colisão.
Energia
Outra característica do Scage é que seu material dispersa a energia do impacto, distribuindo a quantidade de energia inicial sobre o crânio. Além disso, a invenção se apoia em regiões da cabeça com maior capacidade de absorção de energia. “O Scage é 30% menor, 35% mais leve e 35% mais eficiente que os capacetes já conhecidos”, garante Torres.
O novo capacete protege mais a face e a parte posterior da junção da cabeça com a coluna cervical. “Ele tende ficar mais fixo na cabeça, mas permitindo os movimentos”, explicou.
Torres ressaltou que o novo modelo de capacete não é restrito aos usuários de motocicletas, mas também poderá ser usado na construção civil, na prática de esportes e como equipamento de segurança militar.
Atualmente, a Vircoll, empresa especializada em testes de impactos ligada à Incubadora de Empresas da Unicamp (Incamp), trabalha no aperfeiçoamento do Scage. “Agora estamos abertos a interesses comerciais”, afirmou o neurocirurgião, diretor científico da Vircoll.
Em outubro do ano passado, a empresa expôs um protótipo do Scage no Salão Duas Rodas, em São Paulo.
O NÚMERO
63 MIL. É a quantidade de motos que Emdec estima que foram registradas em Campinas em 2005
Produto deverá chegar em breve ao mercado
Médico já está negociando a fabricação em escala do Scage com uma empresa do ramo
O Scage pode chegar ao mercado a curto prazo. Segundo a reportagem do Cenário XXI apurou, a mesma empresa que construiu e desenvolveu o protótipo do novo capacete está interessada em colocar o produto à disposição do consumidor. A empresa, localizada na região de Piracicaba, confirmou estar em negociação com o neurocirurgião Maurício Paranhos Torres.
Um representante da empresa disse que “tem de admitir que a fibra de vidro, por sua estrutura mecânica, seria o melhor material para se fazer capacetes, mas o plástico tem melhor capacidade de absorção, além de ser mais barato.”
“Acredito que esse novo material vai revolucionar o conceito de capacete”, completou o representante. Segundo ele, a empresa analisa se o produto proposto por Torres atende às normas técnicas e a relação custo-benefício. “Não vejo problemas na produção. Se estiver tudo certo em relação às normas, creio que o produto poderá estar no mercado em dois ou três meses. Já se for necessária alguma modificação técnica, poderemos levar de um a dois anos para acertar o problema”, explicou.
Normas
A portaria n 86 do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), de 24 de abril de 2002, institui, no âmbito do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade (SBAC), a certificação compulsória de capacetes de proteção para ocupantes de motocicletas e similares que são comercializados no País.
De acordo com o Código Brasileiro de Trânsito, não usar capacete é considerado uma infração gravíssima. O motorista que desrespeitar a legislação recebe multa de 180 UFR (R$ 191,54), perde sete pontos na carteira e seu direito de dirigir é suspenso.
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